E a Geodiversidade, o
que é?
A preocupação com a
biodiversidade é um facto, mas se realmente queremos saber como preservá-la, deveremos
então reconhecer que o seu suporte é a GEODIVERSIDADE.
Este tema nascido recentemente
tem suscitado diversas interpretações e até diversos conceitos. Para uns,
Geodiversidade integra as rochas, os minerais e os fósseis; para outros além
dos elementos anteriormente referidos, acrescentam-lhe os organismos vivos. O autor
Brilha (2005) propõe a definição da Royal Society for Nature Conservation do
reino Unido: “A Geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos,
fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais,
fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na
Terra”.
A última parte de definição atrás
descrita “suporte para a vida na Terra”, constitui uma das grandes preocupações
da sociedade moderna. Com efeito, hoje em dia uma grande parte da sociedade
começa a questionar-se sobre a durabilidade dos recursos naturais. Serão suficientes
para se manterem os atuais níveis de consumos?, ou tenderão a esgotar-se num
prazo relativamente curto? Há quem afirme que alguns destes recursos estão a
chegar ao fim das suas reservas e outros estão danificados ou deteriorados.
É deveras importante que se dê a
conhecer à sociedade em geral, que há uma necessidade premente de conservar a Geodiversidade,
tanto a nível dos recursos como da própria paisagem natural.
Na senda do que ocorre noutras regiões, a Arrábida sofre com a existência de alguns problemas já devidamente identificados, como ameaças à Geodiversidade, devido à existência de pedreiras, habitações construídas ilegalmente em zonas protegidas e ainda à falta de uma gestão integrada entre as diferentes entidades nacionais e regionais.
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| Serra da Arrábida |
Quando penso nos diferentes valores da Geodiversidade, direciono de imediato o meu pensamento para a serra da Arrábida, candidata a reserva da Biosfera – UNESCO. Considero que existem neste território diversas características às quais se podem atribuir valores como exemplo:
- o valor intrínseco, porque a Arrábida esteve sempre ligada às suas populações permitindo que vivessem em harmonia;
- o valor cultural está presente de variadíssimas formas como os Castelos (Setúbal, Sesimbra e Palmela) localizados em sítios alcandorados, escolhidos pela sua posição estratégica. Também a utilização de calcário nas construções de habitações e monumentos pode ser considerado um valor cultural;
- o valor estético é indiscutível. A Arrábida além de receber diariamente visitantes que vão desfrutar da beleza serra-mar, tem uma das melhores praias do mundo (praia dos Galapinhos) e tem até inspirado pintores e poetas como o Sebastião da Gama;
- quanto ao valor económico, ele é bem visível a qualquer visitante, com as áreas de extração de calcário (pedreiras) e a exploração de margas (a principal matéria prima da fábrica de cimento instalada em pleno Parque Natural);
- no que diz respeito ao valor funcional a Arrábida também o cumpre, oferecendo um habitat perfeito para muitas espécies vegetais e animais, assim como a existência de solos e clima apropriados ao pasto (região famosa no queijo de Azeitão) e perfeitos para as vinhas (dos famosos vinhos moscatel e de mesa);
- finalmente o valor científico e educativo está presente nos variadíssimos estudos de investigação e é também um espaço educativo por excelência para os diferentes níveis de ensino.
Na senda do que ocorre noutras regiões, a Arrábida sofre com a existência de alguns problemas já devidamente identificados, como ameaças à Geodiversidade, devido à existência de pedreiras, habitações construídas ilegalmente em zonas protegidas e ainda à falta de uma gestão integrada entre as diferentes entidades nacionais e regionais.
Deixo aqui um poema dum poeta da
região que viveu a serra da Arrábida:
SERRA-MÃE
Poema de Sebastião da Gama
O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.
Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.
O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.
E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .
Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .
E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.
A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.
E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...
Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !
… se não a Serra pode despertar .
Cópia do Livro " Serra-Mãe "
Poema de Sebastião da Gama
O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.
Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.
O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.
E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .
Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .
E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.
A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.
E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...
Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !
… se não a Serra pode despertar .
Cópia do Livro " Serra-Mãe "
Bibliografia:
Brilha, J. (2005). Património Geológico e
Geoconservação. Braga: Palimago
Gray, M. (2004). Geodiversity. Chichester: John Wiley
& Sons Ltd. Wilson, E. O. (1988).Millennium
Ecosystem Assessment (2005) Ecosystems and Human
Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, D.C
Site consultado:
https://arrabida.amrs.pt/ consultado
a 16/11/2019

Gostei muito deste post e do documentário em vídeo partilhado, obrigado.
ResponderEliminarA questão das pedreiras é de facto muito preocupante e o impacto é de tal ordem que é legítimo questionar se mesmo economicamente fará sentido para economia da região. Afinal elas têm por exemplo um impacto negativo no turismo de Tróia, de onde estas pedreiras constituem uma autêntica nódoa na paisagem, que de outro modo seria paradisíaca. Interrogo-me também se elas não serão um impedimento para a classificação como património da UNESCO, ou, caso essa classificação seja alcançada, como poderão as pedreiras ser compatíveis com esse estatuto?
Bom apesar desse problema a serra é de facto magnífica, como o vídeo bem demonstra. Não por acaso é usada constantemente como cenário de anúncios publicitários, sobretudo de automóveis.
Relativamente às pedreiras, é possível reduzir a sua necessidade, e reduzir muito os impactes ambientais do sector da Construção, adoptando, por exemplo, técnicas de Construção Natural, que utilizem tanto quanto possível matérias-primas disponíveis no próprio terreno onde se irá construir ou em zonas próximas.
EliminarQuantas vezes se transportam para aterro toneladas de material que se encontrava no terreno a construir (durante as terraplanagens e abertura de alicerces, por exemplo) que poderia ter sido usado directamente na construção, reduzindo assim a necessidade de outros materiais, que mais uma vez terão de ser extraídos, processados e transportados às toneladas, com todos os impactes ambientais associados a isso.
Aliando técnicas de Construção Natural, adequadas ao clima e materiais presentes, ao uso de técnicas de Arquitectura Solar Passiva, poderemos também reduzir para próximo de zero a necessidade de aquecimento ou arrefecimento ativo do espaço construído, eliminando custos e impactes ambientais associados ao aquecimento/arrefecimento.
As técnicas existem, e tem inúmeras vantagens ambientais, económicas, mas também a nível de saúde. Falta que este conhecimento seja transmitido a arquitectos e à generalidade das pessoas, e falta também legislação que incentive, ao invés de dificultar, o uso destas técnicas de construção...
Cumprimentos,
Carla Sofia Duarte
Relativamente às pedreiras, é possível reduzir a sua necessidade, e reduzir muito os impactes ambientais do sector da Construção, adoptando, por exemplo, técnicas de Construção Natural, que utilizem tanto quanto possível matérias-primas disponíveis no próprio terreno onde se irá construir ou em zonas próximas.
EliminarQuantas vezes se transportam para aterro toneladas de material que se encontrava no terreno a construir (durante as terraplanagens e abertura de alicerces, por exemplo) que poderia ter sido usado directamente na construção, reduzindo assim a necessidade de outros materiais, que mais uma vez terão de ser extraídos, processados e transportados às toneladas, com todos os impactes ambientais associados a isso.
Aliando técnicas de Construção Natural, adequadas ao clima e materiais presentes, ao uso de técnicas de Arquitectura Solar Passiva, poderemos também reduzir para próximo de zero a necessidade de aquecimento ou arrefecimento ativo do espaço construído, eliminando custos e impactes ambientais associados ao aquecimento/arrefecimento.
As técnicas existem, e tem inúmeras vantagens ambientais, económicas, mas também a nível de saúde. Falta que este conhecimento seja transmitido a arquitectos e à generalidade das pessoas, e falta também legislação que incentive, ao invés de dificultar, o uso destas técnicas de construção...
Cumprimentos,
Carla Sofia Duarte
Bom post. Gostei muito do video. Parabéns
ResponderEliminarOlá!
ResponderEliminarMuito interessante seu texto e o plus do vídeo.
Achei o exemplo da Serra da Arrábida bastante pertinente para o tema visto se grande valor social, econômico e cultural. A importância desse patrimônio para a população é imensurável e sua degradação com a questão das pedreiras e habitações construídas ilegalmente são bem preocupante para a preservação desse ambiente tão rico. Me lembrou de certa forma a realidade brasileira nas localidades serranas, em que o plantio exagerado de Eucalipto tem provocado grandes degradações ao solo.
Paola Pessoa
Muito interessante a forma como são partilhadas coisas diferentes e gostei muito do vídeo.
ResponderEliminarSílvia Moutinho